Haverá o dia…

maio 15, 2008

HAVERÁ O DIA…
José Geraldo Martinez

Haverá o dia em que vais te lembrar…
Quando estiveres com outro alguém,
um dia quando a saudade vem,
inevitavelmente, a te tocar!

Quando algo for em comum:
o sorriso, o andar, o falar, de algum
medo que confessei!
Irás te lembrar…
Haverá o dia, eu sei!

Quando caminhares displicente
por qualquer praia…
Quando te banhares no mar azul ou
olhares no céu o Cruzeiro do Sul…
Lembrarás dos dias que te ofertei!

Ainda mais, das noites em que eu te amei…
Onde fomos nós um só corpo!
Das canções que cantei,
em nossos sonhos, o nosso porto!

Quando estiveres com outro alguém,
a dançares, a beberes…
Pelas ruas, pelo bares,
por luares nas madrugadas…

Irás te lembrar!
Quando algo for incomum…
Dele, comigo!
E, na distância de cada um,
acordarem os momentos vividos…

Fantasmas eternos em nossa mente!
A bailarem nos beijos que não são nossos,
nos abraços que não nos aquecem…
Na solidão de nosso ócio!

Irás te lembrar, quando a saudade
se fizer pesadelo…
Quando por nossas ruas passares
e as flores perguntarem por mim,
querendo ser roubadas pelos jardins
para enfeitarem os teus cabelos!

E, nesta saudade que quase mata,
há de lembrares de coisas miúdas…
Das horas curtas que jamais tornam e das
alegrias baratas!

Da chuva no chão…
Os dias de sol e calor!
Da estrela D’Alva na amplidão…
A receber o nosso amor!

Quando o vento soprar em tua janela
e outro te cobrir do frio…
Ainda que não te aqueça o peito vazio
a alma sozinha!
Haverás de sentir saudade minha!

Igual esta que sinto de ti e me faz
debruçar em triste pranto!
Quando pensei que estivesse a tudo esquecido,
nos amores fugazes… quantos!

Houve o dia em que paguei
meus pecados, é verdade!
Que chorei inconformado…
Haverá o dia em que tu pagarás os teus
com moedas de saudade!

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O Prisioneiro

fevereiro 27, 2008

O PRISIONEIRO!
José Geraldo Martinez

Mais um bando de aves que passam
sobre o céu do entardecer.
Dias e dias assim…
Voam livres sobre mim,
nesta cela, em triste padecer!

Aqui as paredes pichadas
com minhas malfadadas ilusões…
E as horas parecem paradas,
a escutarem meus palavrões!

Pelas noites vejo as estrelas,
sobre os altos muros por mim levantados…
Do outro lado as ruas abrigam
os segredos dos namorados!

Um rio corre e, certamente,
suas águas
por baixo de quantas pontes passaram!
Relógio do tempo, seguem elas,
não voltam às nascentes que ficaram!

Da mesma forma as primaveras…
As flores que nos campos murcharam,
as moças que esperavam por mim,
por certo, até se casaram!

Os amigos que não fiz…
Por certo algum seria companheiro!
E, nesta hora, receberia meu pranto
em seu ombro hospedeiro!

Condenei-me aqui:
 minúsculas quatro paredes…
Em projetos que me tomam o tempo,
este que corre e tem sede!

Por certo teria filhos…
Algum deles estaria me perguntando:
– Pai, para onde iremos?
As férias de julho estão chegando!

Alguma sombra estará perdida
à margem de uma longa estrada…
Um riacho deverá cantar em muitos lugares,
que nunca viram minhas pegadas!

Mais um bando de aves que passam
sobre o céu do entardecer!
A cada minuto morre alguém de fome…
Indigente, sem nome!

A cada hora morre alguém por infortúnio!
Morre-se de solidão…
Condenados pelo trabalho!
Dinheiro maldito, peste macabra!

No ter, sentenciou-se culpado!
Cumpre pena, é condenado,
fugaz ilusão…
Onde tudo acaba!

Enquanto passa, além janela,
mais um dia e
canta feliz a cotovia,
despenca a cascata em qualquer serra e
brotam as sementes na terra!

A vida ignora aquele que se fez
aprisionar!
É ela para os eternos meninos de alma…
Ricos na essência
que, no ser, criam asas para voar!

Escuta!

fevereiro 5, 2008

Escuta!
José Geraldo Martinez
 
 
 
Moça, que neste momento dormes por aí,
nas terras longínquas da desilusão,
Entre lágrimas frias que te tocam o rosto,
em tua infinita escuridão.
Escuta!
Dá-me tua mão?
 Coloca-a sobre o peito sofrido,
abraça-te o próprio corpo desvalido,
como se abraçasses o coração!
Ama-te acima de tudo!
Ainda que a dor fira a tua alma profundamente.
Abre tua janela, olha na amplidão…
Percebes o vento?
Sentes?
Tenho para ti uma proposta!
Já te olhaste no espelho
o quanto linda tu és?
Espia-te, digo a verdade,
da cabeça aos pés!
Incomoda-te o tempo?
A inevitável força da gravidade?
Envelhecer, moça, também é bonito…
É a pura verdade!
Não deu certo um amor?
Teus sonhos, somente os pedaços?
Perdeste alguém tão querido?
O rumo antes certeiro dos teus passos?
Quantos não morreram mil vezes?
Perdi as contas de quanto eu morri…
Amigos que de mim partiram,
filhos que, para o mundo, eu perdi!
Amores? Nem te conto!
Ah! Quantos planos eu fiz!
Na grande lousa dos amigos confiáveis,
seus nomes… escrevi em apagável giz!
Morri muitas vezes,
nasci tantas outras!
Enterrei um filho…
Mãe e pai!
Às vezes, até me pergunto:
morrerei quantas vezes mais?
Ganhei dinheiro e perdi…
Troquei, qual roupa, a religião!
Por quantas altares eu me curvei,
em infinitas orações…
Construí castelos de areia
que a primeira onda os carregou!
Quantas portas a mim se fecharam
e quantas Deus, a chave de outras,
me entregou…
Voltemos à proposta?
Ainda hoje, esquece os temporais!
Despe-te de velhas sombras
que o passado não torna mais…
Ama-te agora!
Amores existem para serem vividos…
Não tenhas medo de uma paixão,
o risco é sempre dividido!
Ganhar ou perder faz parte da vida!
Escuta:
se ainda assim, mais uma vez, morrer…
Em quantas outras estarás renascida?
Coloca a melhor roupa.
A maquiagem que mais destaca o teu olhar.
O perfume que mais te agrada,
já saíste para dançar?
Reciclaste os amigos?
Tenta!
Um amor reprimido?
Experimenta!
Pega o telefone, alguém pode estar
esperando!
Já olhaste à tua volta?
Quem sabe o teu verdadeiro amor
está passando?
Experimentaste?
Por que tu não cantas no banheiro?
Sim! Liberta o estresse, sabias?
A água morna do chuveiro!
Quem disse que tu estás velha?
Ou velho não pode amar?
Tua alma não tem idade ou não sabias?
É o que tu podes para o eterno levar!
Enquanto isto…
Já provaste um beijo de língua?
De preferência com sorvete de pistache?
Nos dias de frio, que tal um bom filme?
Ainda melhor com uma boa erva-mate!
Ler um bom livro,
tirar velhas receitas das gavetas!
Amigas para um bom papo,
jogar fora conversas bestas?
Não gostas de bichinhos?
Um gatinho, cachorrinho, passarinho?
Que tal cultivares algumas flores?
Pintar dá um prazer danado,
brincar um pouco com as cores!
Ter fé é fundamental!
Agradecer a Deus, com alegria!
Não é para todos a vida que abre
em cada amanhecer…
Muitos não têm um outro dia!
Escuta!
A chuva cai mansa no telhado…
Existe um sol no amanhã que adoraria
fazer o teu corpo bronzeado!
Praias brancas, com céu azul.
Estradas que levam a mil caminhos…
Um pé de chinelo faltando o outro,
igual ao teu, sozinho!
A vida está aí!
Basta que tu queiras vivê-la!
De resto, é pueril tudo que sofremos,
um dia passa…
Achar que tudo acabou, besteira!
 
16/6/2007

Este coração!

janeiro 20, 2008

ESTE CORAÇÃO!
José Geraldo Martinez

Este coração
bate, descompassado,
um bolero, em melodia.
Canta apaixonado,
em plena luz do dia.
Escancara meus olhos,
com brilho intenso de
pura alegria!
Arranca-me sorrisos
e poesias…
Deixa-me assim, meio moleque,
por querer pintar nos muros,
seu nome bem grande.
No tronco dos arvoredos,
corações em canivete…
Roubar você, aprontar correria.
Causar alvoroço,
em qualquer delegacia.
Passar a noite, em claro.
Fazer amor no carro !
Ou quem sabe na praia?
Pintar o sete,
dançar à luz da lua.
Este coração pivete
que de amor floresceu…
Bem melhor se não tivera !
Pobre mundo que o carrega,
com este incorrigível defeito!
Pobre de quem não tem,
um igual ao meu, dentro do peito.

Eu, passarinho…

janeiro 15, 2008

EU, PASSARINHO…
José Geraldo Martinez
Neste meu cansaço e entrega
das caminhadas, entre pedras
e espinhos,
entrego-te, Deus, a alma exangue…
Visto-me, enfim, passarinho!

Subo no mais alto do céu,
além do que possa a águia voar…
Das brancas nuvens de algodão,
de todo azul em amplidão,
sinto o Teu rosto tocar!

Ah! Senhor!
Regojizo-me em Tua companhia
e Tu me estendes as mãos…
Chamas-me Teu filho,
mostras-me acolhedores olhos
de compaixão!

Eu, passarinho,
plaino sobre magnífico poente.
Minhas chagas são curadas
por Tuas mãos amadas!
Abandono a pequenez do ser,
a incompreensão dos descrentes!

Tornas-me ao chão,
ao caminho que me falta trilhar…
Fazes a lua em clarão, para que
eu possa enxergar!

Cobres-me de sereno e frescor,
com o perfume das flores do caminho e
faz lutar, novamente,
outrora frágil homem passarinho!

Ainda dizem que Tu não existes?
Pudera! Não tocaram Teu rosto como eu!
Não voaram ao Teu lado, Deus amado,
nesse dia que escureceu!

Um tolo!

dezembro 30, 2007

Um Tolo!
José Geraldo Martinez
Meu amor querido, aqui, longe de ti, sinto saudade tua.
Tenho a impressão que não existo,
sou o vazio destas ruas!
 
Talvez a solitária gaivota no banco
de uma pracinha vazia,
esperando o sol beijar as ondas,
no amanhecer de um outro dia.
 
Aqui, longe de ti,
com esta rua úmida, sou parecido…
Tenho uma nódoa na garganta,
os olhos perdidos no horizonte,
sou pranto escorrido!
 
Um sorriso que não é o meu,
tão sem graça, tão sem vida!
As mãos que outrora falavam,
aqui estão encolhidas…
 
Quem inventou a distância
das almas que são afins?
Separando dos corpos o calor.
Passou toda vida enganado,
nada entendia de amor!
 
Quem inventou a distância
das almas comprometidas?
Passou toda vida enganado,
achando ser esta uma só vida!
 
Agora, de uma coisa ele entendia:
é a mais pura verdade!
Ainda que fosse um tolo,
soube inventar a saudade!

Minha poetisa

dezembro 27, 2007

MINHA POETISA !
José Geraldo Martinez
Eu queria ser a poesia
que escreves,
tua sublime inspiração …
O papel que seguras leve e
escorregas a tua mão !

Sobre mim fazes tuas rimas ,
com as canetas do indicador
e verseja sobre meu corpo
 a poesia do amor …

Ah! eu, queria ,
ser qualquer
objeto enfim !
Que fosse um mata borrão ,
o teclado que usas ,
o cigarro que abusa
dos teus lábios carmim !

Compactuar contigo
no silêncio que descortina ,
com teu olhar perdido
no verso
que não terminas …

Queria receber tuas solitárias lágrimas,
sou o papel que te inspira
 e chama !
Terminar a poesia
que seria minha e
 sou eu quem amas !

Ah! Eu queria ser qualquer coisa
que tocas e neste momento precisa …
Que ninguém ouse
amar-te mais que
eu, querer-te mais que eu,
poetisa !