O Passarinho e a Árvore
Jorge Linhaça

Havia um passarinho que todas as noites ia repousar sobre o galho de uma árvore, ali no bosque encantado. A árvore ficava feliz ao ver o passarinho chegar depois de fazer muitas estripulias durante o dia, e aconchegar-se ali nos seus galhos.
Conversavam por bastante tempo e o passarinho lhe contava histórias de como era o mundo além dos limites da visão da árvore que, enraizada, não podia sair do seu lugar.
– Passarinho, meu amigo, que me contas de novidades? Por onde andaste hoje?
– Ah, dona árvore, hoje voei para além do lago, encontrei lugares novos, vi tapetes de flores nas casas dos homens, eles chamam aquilo de jardim…
– É mesmo? E o que mais tu viste ?
– Vi crianças brincando nas ruas, vi adultos sempre apressados, vi bandos de pardais a fazerem algazarra por entre os fios elétricos.
– Que bom, amigo passarinho, eu bem queria poder ver tantas coisas, mas, ainda bem que tenho a ti , meu amigo, para me contar sobre o que eu não posso ver por não poder sair do lugar.
E assim conversavam eles todas as noites.
Quando o sol já ia nascendo o passarinho cantava uma doce melodia que enchia de encanto o coração da árvore; e lá se ia ele para o seu dia a dia, batendo as asas coloridas e brincando com outros passarinhos.
Uma noite o passarinho voltou muito triste e assustado,Seu coração parecia que ia pular para fora do peito de tanto que batia acelerado.
– Amigo passarinho, que foi que te aconteceu? Por que estás assim assustado e triste?
– É terrível, é terrível…o que eu vi é terrível, repetia sem parar o passarinho…
– O que é terrível, passarinho? Insistia a árvore…
– Eu vi, minha amiga, eu vi, ninguém me contou…ai que tristeza…
– O que você viu passarinho??
– Eu vi passarinhos presos em gaiolas, sem poder saírem de lá…sem poderem ver a beleza do mundo, sem poderem voar alegremente como eu…ai dona árvore, que coisa mais triste…
– E como eles foram parar nas tais gaiolas?
– Não sei amiga árvore, fiquei com tanto medo que voei para bem longe, não tive coragem de me aproximar…ai que tristeza…que tristeza…
– Pobre amigo passarinho,  o que pretendes fazer ?
– Eu? Eu sou tão pequeno amiga árvore, que poderia eu fazer?
–  Podias conversar com esses pássaros engaiolados e descobrir por que estão presos às suas gaiolas.
– Mas eu tenho medo, não quero ficar engaiolado também…
– E por acaso, amigo passarinho, o medo não é também uma gaiola? Não ficamos presos a ele como os pássaros que viste ?
– Tens razão, dona árvore…
A noite se passou mais longa que de costume, o pássaro não conseguiu dormir e na manhã seguinte, nem bem saia o sol e lá se foi ele bater asas em direção às gaiolas que havia visto no dia anterior.
Ficou a voar em volta das casas até que finalmente viu colocarem para fora a gaiola de um canário. Ficou observando por muito tempo até ter certeza de que os humanos não estavam por perto e, cautelosamente, foi se aproximando até  que tomou coragem para pousar no teto da gaiola.
O canário levou um susto danado:
– Valha-me São Bem-te-vi! exclamou assustado. Quem é você?
– Calma amigo canário, vim aqui para saber como ajudá-lo…
– Me ajudar? ah-ah-ah-ah-ah, riu o canário, me ajudar por que ? Quem foi que te disse que preciso de ajuda?
– Você está preso dentro dessa gaiola, não pode voar livre pelos campos, pousar nas árvores, brincar com as borboletas…
– E quem te disse que acho isso ruim? Olhe só, tenho comida da boa e da melhor, não preciso andar por ai a procurar alimento, tenho minha banheira para tomar banho, água sempre fresca no meu bebedouro…por que deveria querer sair por ai com o risco de não ter estas coisas ?
– Amigo canário, disse o pássaro decepcionado, eu vôo livre pelos campos , como alpiste direto no pé, tomo banho no riacho ou no lago, sempre existe água para eu beber e à noitinha durmo no galho de minha amiga árvore..
– Cruz Credo! -disse o canário- Dormir no galho de uma árvore, embaixo de chuva e ao relento? Eu aqui durmo bem quentinho dentro da casa, estou sempre protegido. De manhã me trazem para o sol e fico aqui até que ameace chuva ou escureça, nessa hora, logo me tiram daqui…além disso vivem a elogiar o meu canto.
– E não sentes falta da liberdade? Não te sentes sozinho nessa gaiola?
– Claro que não! Eu gosto mesmo é da mordomia, aqui não preciso fazer nada além de cantar…Essa coisa de liberdade é muito perigosa. Prefiro ficar preso com conforto do que livre e tendo de me cansar por aí.
O pássaro decepcionado despediu-se do canário e voou para longe.
À noite foi repousar no galho da amiga árvore e lhe contou da conversa que tivera com o canário e o quanto estava triste com o que ouvira.
A árvore, do alto de sua sabedoria de dezenas de anos a olhar os seres ao seu redor disse:
– Amigo pássaro, não fiques assim entristecido, há os que gostam da liberdade, de fazer e dizer o que pensam, e há os que preferem ficar presos para receber regalias, os próprios homens que aprisionam os animais, são eles mesmos prisioneiros de muitas coisas.
Assim como os canários, muitos deixam-se aprisionar em gaiolas douradas, sucumbem aos elogios, aos presentes, à adulação e aos favores que recebem.
– Mas por que ? Eles são os bichos que mais liberdade tem, até mesmo construíram aparelhos para voar e para andar debaixo d’água…
– Ah, meu amigo passarinho, a liberdade não é uma questão de espaço, a liberdade é uma questão de espírito, de alma. Como eu te disse ontem, muitas vezes os medos são as piores gaiolas que podem existir. Por medo de dizerem o que pensam, muitos seres humanos vivem a querer agradar a todos. São poucos os seres humanos que se permitem a liberdade de pensar e dizer o que pensam. A maioria é como teu amigo canário, preocupa-se apenas com a sua sobrevivência. Alguns já foram ensinados assim desde pequenos, outros ficaram assim por que acham mais fácil conseguir as coisas fingindo concordar com todos. Enfim, o ser humano, assim como teu amigo canário, tem asas para voar mas prefere fincar os pés no chão com medo de cair das alturas.
– E como libertar os canários ou seres humanos dessa ilusão ?
– Ah, meu amigo, ninguém pode libertar ninguém da ilusão, o segredo está dentro do coração de cada um e, a chave para o coração, só o seu dono tem de verdade.
Não adianta abrires a gaiola de teu amigo canário, se ele não tem vontade de voar.

Pirlimpimpim,
pirlimpimpão
a história chegou ao fim
quem gostou levanta a mão.

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Estações do Amor

maio 12, 2010

ESTAÇÕES DO AMOR

Como chuva leve de outono percorro seu corpo
No calor do verão cresce a imensa paixão
O frio do inverno une nossos corpos
Aquece com nosso amor, sonhos, entrega e devoção.
A primavera surge com ela as flores multicores
E assim enche de alegria o nosso viver.
Vivemos para o amor, doce e terno amor!
A manhã nasce, pássaros cantam
Celebram a vida que ressurge em mim
Vida que está em você
E me faz querer viver
Pois nosso amor é chama
Nos faz cada dia mais querer e se ter.

Nanci Laurino

AOS MENINOS DE RUA

maio 12, 2010

AOS MENINOS DE RUA

Entre ruas sujas de excrementos de animais
meninos brincam, na doce inocência de sua
infância. Os carros ali parados em cima dos
passeios não são incómodo para os seus jogos
e sua criatividade vê-se a todo o instante,
improvisando campos para brincar dê lá por
onde der.
Nas janelas roupas secam ao vento a brancura
do dia e a todo o momento senhoras vêem à
janela gritar com os meninos, para que estes
tenham cuidado com a bola, por causa das
roupas limpas e dos vidros partidos.
Os meninos ouvem atentamente e acham sempre
que essas coisas não lhes vão acontecer a eles,
afinal só querem brincar e têm cuidados
reservados, para não afectar ninguém, mas no
empolgamento é natural que uma ou outra roupa
absorva o impacto de um bola chutada por um
verdadeiro campeão e por não ter para onde ir a bola
se direccione a um vidro, acabando o jogo na hora,
com todos a fugirem para suas casas para não serem
acusados de tal infracção.
Passado o susto todos se reúnem e se tiverem sorte
recuperam a bola e descem até à baixa da cidade,
para aí continuarem a peleja, em cima de um espaço
bem mais abrangente e coberto de erva bem verde.
Muitos trazem frutas e pão para irem comendo
consoante o passar do dia vai pedindo novas energias.
E assim são muitos meninos de rua, alguns vão algumas
horas à escola mas acabam fugindo e todos reunidos
até que a lua se mostre alta no céu, são eles os amigos,
os irmãos e os pais uns dos outros…
Amigos inseparáveis de todas as horas e
circunstâncias, sua lealdade para com os outros
é inquestionável, e não os tomem por ignorantes,
que a si se governam muito bem. E quando os pais
regressam a casa, os meninos, meio adormecidos,
contam como foi mais um dia de lutas e de imensas
vitórias, junto dos seus, de agora e de sempre.

Jorge Humberto