Na tua ausência
Outubro 31, 2008
Na Tua Ausência
Cláudio Madeira
Magoado, o coração morrendo
às tantas da exausta madrugada
enquanto o amargo vai chovendo
bocadinhos de chuva culpada.
Expurgam os olhos às três horas
vendo folhas de outono caídas,
arrastando para o lado de fora
vértebras fraturadas e vazias.
Dorido e sem fé o peito salta
ganindo no escuro feito cão vadio;
cansada de lutar, a alma aleijada
berra! Nos braços do imenso vazio.
Morre a pele no silêncio noturno
Inanimado, o corpo não leva nada
acabado no rastejar mudo e surdo
do interior de pernas esfaceladas.
Folha de outono
Outubro 31, 2008
Folha de Outono
José Carlos Iozzo
Vi-me caminhar por uma longa estrada
ruidosa, onde árvores secas e sem galhos
feriam-me entranhas como lanças afiadas
arrancavam-me pedaços, pele e braços!
Agrediam o ventre, que tristonho se calava
pertencente ao nada, a ninguém, a solidão
e nas íngremes e mais frias ladeiras, rolava
como pedra solta perdida na escuridão!
A voz pálida e rouca, já não fazia eco
não retornava nenhum sinal de amor
e o espaço vazio me doia, te confesso
açoitava com furor, o profundo interior!
Sentava eu, às margens do triste regato
a água corria e pequenos círculos formava
mas os olhos inconscientes e cansados
só viam o lodo que no fundo se espalhava!
Andava eu, neste e noutro rio, à beira
à espera de um vento que me brindasse
com a folha de outono que fosse vermelha
e das paredes de sombras, me despregasse!
Meus longos dedos prolongavam no papel
tantas letras despedaçadas, sem afeição
dormia eu, feito mendigo sem chão nem céu
e acordava no mesmo mundo de desolação!
Contraditório! Apanhei a minha vida
sem esperanças de nada, disse adeus
segui rumo àquela paragem imprevista
e pela vez primeira, mirei os olhos teus!
Vi então, sol e lua girar ao mesmo tempo
o meu peito se encheu de amor e esperança
senti arder no âmago o sonhado sentimento
e te querer junto de mim sem mais andanças!
Ajoelhei-me ante Deus naquele chão que era teu
e implorei à Ele, que nos estreitasse em unidade
esculpindo meu corpo e espírito junto ao teu
com a água abençoada do amor e da verdade.
Ah…Amada minha, tão amada e sagrada!
Foste tu, a mulher saída das minhas costelas
sabia eu que eras tu o barro que faltava
para vedar todas estas portas e janelas!
Vi-me então, renascer nos ruídos mais ardentes
voltei às águas do rio, que já não eram as mesmas
e num suspiro de olhos bem abertos, tão contente
vi nas árvores o balouçar das folhas vermelhas!
Feito pássaro liberto, voei sobre campos perfumosos
e a íntima escuridão amendrontada a este renascer
desceu às profundezas quando os meus cegos olhos
se ofuscaram ante o esplendor que emanava do teu ser!
Hei de te amar com tanta ardência e força
assentar pedra sobre pedra sem mais sofrer,
pois que és a folha vermelha dentre todas
que veio a mim, abençoar o meu viver!
A cor exata
Outubro 31, 2008
A cor exata
Luana Buzin
A cor exata que resiste
na cicatriz ainda aberta
é da certeza alinhavada
na saudade que em mim reside.
Janela
Outubro 31, 2008
Janela
Abel F.Acerra
Havia uma janela aberta
que para nada se servia
não possuía alma nem matéria
tampouco luz clara e contínua.
Na ligeira e pálida inclinação
para baixo, desdenhava a emoção
a disritmia longe da harmonia
não preenchia, era sombra vazia.
Língua e dentes feitos de barro
sem formas na escuridão da noite
diziam tanto e não falavam nada
tinham a solidão como açoite.
Cansada de estar entristecida
deixou um dia, adentrar aquela flor
e seu espírito tocado pela magia
a transformou em portal de amor.
Hoje, janela singela de voz ativa
abre e fecha sem ranger trincos
as madeiras envernizadas sem rancor
mostram um interior em nova cor.
Noite estrelada
Outubro 31, 2008
NOITE ESTRELADA
Silvana Albuquerque O. Magri
Ante o azul dos céus
que abranda minhas asas
as brumas passageiras
não escondem o riso nu
da minha alma liberta.
Eu te pertenço, suave anil!
Evoca os magmas febris
e me toma o corpo e toda a alma
para bem longe, um lugar longe daqui!
Ó azul noturno que arde nos meus olhos
avança nas profundezas do meu ser
convoca em mim a chama incandescente
adestra os meus passos
e me faz no Amor e Paz viver!
Coração pequeno
Outubro 31, 2008
Coração Pequeno
Carlos Assis
O poeta conversa com as palavras
Conta histórias meio banais
Inventa coisas incomuns
Recheia de pecado mortal
Um cotidiano pacato
O poeta conversa com as flores
Faz da natureza uma confidente
Devora o próprio peito
Se torna vadio
A procura do amor desvairado
O poeta conversa com os espelhos
Faz críticas à sociedade alternativa
Chora de saudade das musas burguesas
Perde a dignidade no jogo de cartas
E resmunga singularmente
O poeta conversa com a noite
Revela segredos dos anjos
Suplica desejos imortais
Cutuca a religião dos antigos
Discute o amanhã com as estrelas
O poeta conversa com o inconsciente coletivo
Desdenha da loucura
Cospe na calçada da fama
E mente toda vez que escreve
Todos os poemas são tortos
O poeta conversa com o travesseiro
Sobre o destino das andorinhas
Enterra sonhos na terra do nunca
Eterna prisão dos alcoólicos
E espera uma morte gloriosa
Gotinha de esperança
Outubro 30, 2008
Gotinha de Esperança
Selma Dias Paulino
Ouvir a voz de Deus
Falar e buscar Nele a coragem
para buscar e encontrar
no nosso próprio interior
respostas às nossas indagações
a aceitação às nossas falhas.
Reconhecer
que somente quando buscamos
e seguimos a voz divina
é que encontramos e transmitimos
Amor, Paz e Alegria
numa gotinha de Esperança.
Pássaro aprendiz
Outubro 30, 2008
Pássaro Aprendiz
Joana Pompeu
No galho seco
da árvore cansada
sem a sombra que descanse
a raiz quase manchada
repousa o pássaro silencioso
à espera
da luz que oriente
o caminho
que à paz o leve.
Nuvens de algodão
Outubro 30, 2008
Nuvens de Algodão
Milamarian
Outrora a branda cantiga
no cume do monte reverdecido
elevava o ventre adormecido
acorrentava entradas e saídas.
O silêncio vinha em lentidão
as vozes? Em forma de sombras
a flutuar nas mais altas ondas
da melancolia, sem resignação.
Sorvi então, o vinho e o mar;
no rubor que o outono repousava
e o horizonte em mim a reclinar,
mostrou rubras folhas no chão
a verdade das cristalinas águas
em gotas! Das nuvens de algodão.
Raízes
Outubro 30, 2008
Raízes
Pedro Luiz Arengo
A frente, a paisagem estendida
feito tapete liso e transparente
de parcas palavras distorcidas;
em férias! Está a minha mente!
Dias divididos em horas vagas
na boca a conversa entrecortada
crianças correm em gargalhadas
a vida passa! Na realidade centrada.
Preservo, com espanto, a infância
descobrindo uma aldeia tão comum
no sossego verde em consonância
com o mar, no seu profundo azul.
Regresso à fotografia na parede;
ainda me lembro das festas felizes
vejo então nos ramos ainda verdes
que no chão firme, finquei raízes.
O milagre da criação
Outubro 30, 2008
O Milagre da Criação
Luz Sampaio
No abrigo do ventre materno,
precioso ser a pulsar vida
aguarda o momento sublime…
momento que faz acontecer
a pura dádiva de Deus,
perpetuando o ciclo da vida!
O nascimento de um filho,
chega trazendo alegrias
enchendo a vida de fragrâncias…
como a primavera de flores
desabrochando em lindas cores
exalando aromas em abundâncias!
Na aurora que se aproxima,
ao embalo da doce cantiga,
sonha o ser com o berço azul…
e mais uma vez, em transição,
chegando o momento divino,
acontece o milagre da criação!
A natureza infinita, em júbilo,
saúda a criação, esse bem maior,
com graça e boa aventurança…
e nos braços aconchegantes
de quem os gerou com amor,
dorme agora feliz, a criança!
Despedida
Outubro 30, 2008
Despedida
Adilson Cordeiro
Brutal, ríspida e ferina
mata e fere feito navalha
tu, rude palavra espectral
corta a carne, restos espalha.
Projétil firme no gatilho
abre o ventre, come migalhas
teu copo de veneno é letal
joga o corpo na fria mortalha.
Pronta mira, surda ao grito
como o riso mudo do chacal
maldita, aponta o meu destino
ao me ver, jogado no lamaçal.
O que vês?
Outubro 30, 2008
O que vês?
Marcelo Marques Faccenda
No som branco da memória
escorrendo acordes inocentes
do suor na pele inda quente?
O ritmo da vida entranhado
nas paredes onde jorra o sangue
das formas adulteradas e exangues?
Um espaço que não mais detém
na dimensão perdida sem nitidez
quando tudo habita a insensatez?
Se tu vês, me chama mesmo assim
na leveza que não chega até aqui
nessa combustão amarga e sem fim.
A dor que sinto
Outubro 30, 2008
A dor que sinto
Madalena Ribeiro
Sinto a dor do amor
do relacionamento terminado
sigo ainda amando sem me acostumar
a essa ausência que me consome.
A sensação é da perda, com a alma
embrulhada em papéis de dor.
Sinto uma dor que me rasga por dentro
a dor da falta dos abraços e beijos
a dor em saber que já não sou mais importante.
O coração abandonado se remoe numa saudade
apegado a tanto sentimento que se gerou por dentro.
Sinto a dor da despedida, do adeus a mim mesma
enquanto vou costurando nos retalhos, o final da história
alinhavando os pedacinhos meus.
Na tua biografia
Outubro 30, 2008
Na tua biografia
Ademir Ribeiro da Silva
Nas entrelinhas do teu corpo
leio teus pensamentos
despido de falsos pudores
as frases se formam
sem palavras decoradas
folheio o livro da tua história
onde as páginas não mentem
mostram o teu interior
em teias onde eu me enredo
sorvendo nas letras de cada linha
o doce sabor da carne
onde não sou vitorioso
e nem tu és vencida
somos junção
de amor e vida.
Rosas e girassóis
Outubro 30, 2008
Rosas e Girassóis
Elaine Cristina Tirrell
Vivem no nosso jardim
e conhecem a boa vida
aquecem-se à luz do sol
sobrevivem a toda contenda
seus braços alcançam os céus
suas faces são beijadas pelo sol
florescem separados
mas para Deus, são apenas um.
Sejamos girassóis e rosas
de diversos tamanhos
crescendo firmes e fortes
na direção da Divina Luz.
Eu não quero ser Pinóquio
Outubro 30, 2008
Eu não quero ser Pinóquio
Jorge Linhaça
Eu nasci de carne e osso
com sonhos e fantasias
mas o mundo é guloso
e anda sempre sequioso
de juntar-me às maiorias
Na escola o a-be-cê
já vem no confinamento.
Só é burro quem não lê?
Ora, mas veja você,
criam cabeças de vento.
Mas nem se pode culpar
a figura do professor
É tanto papel pra entregar
tanta coisa a o massacrar
que interfere no labor
Entram na escola meninos
saem bonecos de pau
dia a dia assistimos
(e nos erros persistimos)
a esse triste final.
Massificar não ensina,
nem matar as fantasias.
Entre Pinóquio e Emilia
prefiro as estripulias
da boneca maluquinha.
Recuso-me a ser boneco
eu quero mais é ser gente.
Há que ache que está certo
sufocar o intelecto
na criança tão latente
Amarram os professores
na mesmice eternizada
são como os velhos feitores
a gritar seus dissabores
impedindo a alvorada.
Quem é boneco de pau
sufoca toda esperança
O novo parece-lhe mau
um pecado capital
é avesso às mudanças
Tantos pinóchios gerados,
bonecos privados dos sonhos,
no poder entronizados
pelo mundo espalhados
a achar-se o summum bonum
A criança que não sonha
privada das fantasias
é criação tão bisonha
que já não há quem a ponha
a ser pensante um dia.
Eu quero ser Peter Pan.
Deus me livre de crescer!
Quero acordar de manhã
co’a poesia minha irmã,
sonhar enquanto viver.
No tempo silencioso
Outubro 30, 2008
NO TEMPO SILENCIOSO
PAULA VIEIRA
No tempo silencioso
que não cura cicatrizes
versejo, disfarçada de alegria
enquanto as entranhas
padecem na saudade dolorida.
Nas horas silentes
que me trazem algumas rimas
o meu verso fala de amor
enquanto o peito
morre mais pouco na saudade.
Nos minutos solitários
eu empresto a minha vida
como casulo bem fechado
onde só a solidão se abriga.
Reflexos primaveris
Outubro 30, 2008
Reflexos Primaveris
Vanda Baldessin
Na leveza da estação
no brilho da luz
na suavidade do som
a vida se completa
em mais um ciclo
com harmonia e perfeição.
Corpos cativos
Outubro 30, 2008
Corpos Cativos
Luis Henrique M.Trindade
O entardecer iluminava
o roçar dos nossos ombros
o silêncio no colo se sentava
num pouso cálido e amoroso.
Estrelas desciam do firmamento
em mais uma noite estrelada
na sombra do breve momento
nas horas…leves e esperadas.
Flautas em acordes melodiosos
dançavam à luz daquela prata
um baile de corpos cativos
numa mescla suave e iluminada.
E por mais que alguém quisesse
ofuscar o sol ardido da existência
por dentro, o brilho era a prece
por fora…de joelhos, a evidência.